domingo, dezembro 29
sábado, dezembro 28
numa semana de cinco dias inúteis e outros dois que se negam a ser mesmo o fim.
eu moro numa esquina reta de um beco sem entrada.
eu to ao avesso na ponta-cabeça do meu lado oposto.
eu tenho um ego do tamanho do meu mundo que é bem maior que o seu.
eu vivo num medo profundo de nunca mais achar onde dê pé.
eu rezo baixo porque guardo os gritos pra quando falta a fé.
eu sou uma boca arreganhada em berro.
eu sou um problema que não faço questão de solucionar.
e eu falo de mim, mas na verdade é tudo sobre você.
sábado, dezembro 14
terça-feira, dezembro 10
socorro.
não é a boca seca, muda, que grita em silêncio e canta em dó lá no fundo que ele tem a si e a mi. não é a cabeça pós-sangria, na ressaca burra de quem tenta esquecer em uma hora o que outras vinte e três só fazem lembrar. não é o rosto salgado e ardido de pranto sem razão. não é o maxilar arraigado num sorriso que não murcha, quase como de plástico, nunca felicidade que não se recicla.
não é o corpo todo, não é em corpo nenhum.
o que mais dói é saber que, de tantas dores, é a ideia de parar de sentir que me põe a sofrer.
sexta-feira, dezembro 6
sábado, novembro 30
dizem que a morte é o que acontece depois do último suspiro. os céticos, que é o fim da linha, de tudo, do mundo e de mim. que não há mais o que fazer ou inventar. que não há.
dizem que a vida é um desafio. que é feita de escolhas. a arte do encontro. que é bela. uma dádiva.
dizem que devemos viver cada dia como se fosse o último, e um dia de cada vez - não que exista outra opção.
dizem que sonhos alimentam a alma. que é preciso trabalhar duro pra ter como pagar o que comer. que sonhar é de graça.
dizem que descrever é limitar. dizem em silêncio que queriam saber o que os outros pensam deles mesmos. outros que, com sorte, não dizem nada.
dizem que o dizimo é da graça. dizem que não há lei. dizem que falta justiça. dizem que sobra ausência.
dizem que falta coragem pra dizer não. dizem que o sim não educa. dizem que a educação não condiz com o que se paga. dizem que se paga muito pelo que um dia disseram, mas que nunca passou de discurso.
mês que vem bate no contra-cheque.
dizem que o amor é uma dor. um prédio desabando. que tira o chão. que faz flutuar. que um dia acaba.
dizem que o sono é um gigante. e depois dizem que o gigante acordou.
dizem. e como dizem.
dizem tanto que as vezes me sinto surda. que as vezes o quero ser.
que tantas outras queria simplesmente não ser.
tampouco dizer.
...
.
sexta-feira, novembro 22
eu tenho fogo, não duas pedras e um princípio de evolução. eu sou o berro, não o soluço. eu sou mais do que isso, mais do que você e mais do que qualquer um de beira de esquina diz que eu seria se aumentasse um pouco mais o decote.
eu sou mulher, sou homem, sou um bicho com fome.
quinta-feira, novembro 21
levantar de uma cama que conforta pernas pra que esqueçam da falta de braços que, mesmo não meus, eram parte de mim.
caminhar pela cozinha como quem anda sob o fio da navalha, num silêncio que rasga o peito e emudece por dentro até que eu esqueça o timbre da minha própria voz.
quanto mais calada eu fico, mais minha cabeça faz barulho num tom abaixo do fundo do poço.
quem cala só sente.
parem de me apontar.
eu não sou louca.
eu sou a loucura.
quarta-feira, novembro 20
terça-feira, novembro 19
tampouco eu.
terça-feira, novembro 12
queria entrar num bar e não precisar pagar nada.
queria encontrar o cara mais bonito que eu já vi na minha vida de hoje.
queria fingir que ouço o que ele diz como se a musica e eu já não estivéssemos altas o suficiente.
queria transar por meses num quarto fechado e escuro que não se sabe se lá fora é dia ou noite.
queria abafar a voz dele com a minha carne e rir de um jeito sacana como quem pede pra calar a boca porque vamos ter o melhor sexo das nossas vidas.
queria a cama rangendo por conta da madeira velha condenada e dos nossos corpos esguios e ensebados e nada ortodoxos.
queria gritar dentro de mim.
queria você dentro de mim.
queria você.
queria estar chupando a minha metade da laranja.
queria parar de escrever porque digitar com uma mão só tá foda.
fo.
da.
sábado, novembro 9
vai ver isso me distancia da grande maioria. vocês ficam nessa picuinha de ser melhor que um, dois ou todos. vivem pro resto.
não me acho diferente.
no fim das contas eu só quero ter meu ego massageado, meus peitos amaciados e o estomago alimentado como qualquer pessoa normal.
terça-feira, novembro 5
pensou que fosse pra sempre. ele disse que seria.
viado mentiroso, rato de puteiro, drogado, maldito, meu fim.
ele estava sentado na sala, olhando a televisão sem enxergar nada.
que porra de jogo ruim, acabou a cerveja, preguiça de ir no bar.
é, vou ficar aqui mesmo, que se foda. e pára de tocar, telefone desgraçado.
era a outra. não estava aflita, não estava apática. estava ela, toda ela. a vadia.
a qualquer uma porque dá pra comer, só dependia do ponto de vista.
ligava pra saber se ia rolar mais uma.
mas não ia. ele não queria.
aliás, de acordo com a mulher cuja vida ela desgraçou, ele não queria nada.
era um sem rumo nem fundo. era um sem razão.
mas também dependia do ponto de vista, porque de acordo com ele, ela tinha esse papel.
e agora ela estava ali, ainda repetindo aquele circuito agonizante.
querendo lembrar de alguém que poderia garantir sua diversão nada sóbria, que pudesse levá-la para um beco qualquer e fodê-la sem critérios, sem saber o nome. sem colchão nem forro nem choro.
queria ser usada por completo.
queria ser a outra.
queria não ser mais nada.
cadê as anfetaminas?
ele tentava se lembrar de como falar com as mulheres.
de como se chama aquele sentimento que estava ali agora há pouco, mas que provavelmente foi expelido junto com a porra toda.
literalmente.
ele lembrou. a amava, ela precisava saber disso.
mas era incompetente demais, incapaz de sair porta a fora e gritar o que tinha sido calado por muitos pares multicoloridos de peitos sem identificação.
sua nova versão não conhecia muito do mundo além da imundice fanática por neons de casas promíscuas e saias que mais parecem cintos e mulheres que gemem por 10 paus.
e não importa o ponto de vista nesse caso.
ficou perdido em si, dando voltas.
ela deu.
o telefone dele parou de tocar. ela convidou um amigo de um colega de um vizinho, que ela chamava de Cara só por educação, porque ele não seria nada.
foram pra um qualquer de beira de esquina e a música ambiente se misturava com o mofo do quarto, colônia barata e angústia.
e a outra era só a outra. que não ligou mais, não se importou em saber.
e quem se importa quando a dor não consome a si?
sexta-feira, novembro 1
o pênis, como um bom apêndice, se encarrega do mundo externo. a sociopatia se instala numa falta mal batida, numa conversa de mesa redonda estúpida ou num cd arranhado.
a vagina, substancialmente interna, explode um quarteirão por emoções. no final, não há normalidade. tampouco anomalia.
é humano estar a margem, é humano estar onde não se deve. ser extra-ordinário.
não existe essência mais enfadonha e, ao mesmo tempo, mais excitante do que a nossa. não existe arrogância mais burlesca e necessária pra sobrevivência do que a que usamos diariamente.
não existe muita coisa.
talvez nada realmente exista.
talvez tudo seja um sonho, você nunca tenha crescido e esteja presenciando tudo isso enquanto mija em seu pijama. um pesadelo.
morrer é acordar.