terça-feira, novembro 5

ela andava de um lado para o outro, no quarto trancado. querendo estar com ele.
pensou que fosse pra sempre. ele disse que seria.
viado mentiroso, rato de puteiro, drogado, maldito, meu fim.

ele estava sentado na sala, olhando a televisão sem enxergar nada.
que porra de jogo ruim, acabou a cerveja, preguiça de ir no bar.
é, vou ficar aqui mesmo, que se foda. e pára de tocar, telefone desgraçado.

era a outra. não estava aflita, não estava apática. estava ela, toda ela. a vadia.
a qualquer uma porque dá pra comer, só dependia do ponto de vista.
ligava pra saber se ia rolar mais uma.

mas não ia. ele não queria.
aliás, de acordo com a mulher cuja vida ela desgraçou, ele não queria nada.
era um sem rumo nem fundo. era um sem razão.
mas também dependia do ponto de vista, porque de acordo com ele, ela tinha esse papel.

e agora ela estava ali, ainda repetindo aquele circuito agonizante.
querendo lembrar de alguém que poderia garantir sua diversão nada sóbria, que pudesse levá-la para um beco qualquer e fodê-la sem critérios, sem saber o nome. sem colchão nem forro nem choro.
queria ser usada por completo.
queria ser a outra.
queria não ser mais nada.
cadê as anfetaminas?

ele tentava se lembrar de como falar com as mulheres.
de como se chama aquele sentimento que estava ali agora há pouco, mas que provavelmente foi expelido junto com a porra toda.
literalmente.
ele lembrou. a amava, ela precisava saber disso.
mas era incompetente demais, incapaz de sair porta a fora e gritar o que tinha sido calado por muitos pares multicoloridos de peitos sem identificação.
sua nova versão não conhecia muito do mundo além da imundice fanática por neons de casas promíscuas e saias que mais parecem cintos e mulheres que gemem por 10 paus.
e não importa o ponto de vista nesse caso.
ficou perdido em si, dando voltas.

ela deu.

o telefone dele parou de tocar. ela convidou um amigo de um colega de um vizinho, que ela chamava de Cara só por educação, porque ele não seria nada.
foram pra um qualquer de beira de esquina e a música ambiente se misturava com o mofo do quarto, colônia barata e angústia.

e a outra era só a outra. que não ligou mais, não se importou em saber.
e quem se importa quando a dor não consome a si?

Nenhum comentário: