domingo, dezembro 29

um vício nada mais é do que a repetição do medo. dentro de cada cigarro meu tem um padre, um delegado, um ventilador de fio solto, um elevador, um amor a distância, um túnel infinito, uma sombra invertida, um palhaço de olho de vidro, uma balança, a insegura, um espelho e um hospício.
a lucky strike é um bicho papão.

sábado, dezembro 28

eu sou como uma manhã que não nasce
numa semana de cinco dias inúteis e outros dois que se negam a ser mesmo o fim.
eu moro numa esquina reta de um beco sem entrada.
eu to ao avesso na ponta-cabeça do meu lado oposto.
eu tenho um ego do tamanho do meu mundo que é bem maior que o seu.
eu vivo num medo profundo de nunca mais achar onde dê pé.
eu rezo baixo porque guardo os gritos pra quando falta a fé.
eu sou uma boca arreganhada em berro.
eu sou um problema que não faço questão de solucionar.

e eu falo de mim, mas na verdade é tudo sobre você.

sábado, dezembro 14

porque ele quer ocupar o buraco do peito que cavei com meus próprios nãos. porque ele quer roubar meu vazio de mim. porque ele quer ser o que já me fiz descrer. porque ele põe bagunça na minha ordem. um fenômeno, uma força da natureza.

um completo desastre.
no fim das contas, não mudou muita coisa. antes éramos um par, agora somos dois.

terça-feira, dezembro 10

o que mais dói em me apaixonar não é o peito latejando, pedindo pra sair e só voltar quando tiver outro dentro de mim. não são as costas rijas, tensas, curvadas por horas na espera de uma nova mensagem monossilábica que seja. não são as mãos frias e suadas, com medo de desagradar, como quem mora à beira do abismo e teme não convencer a morte de que quer ficar nesse plano. não são as pernas inquietas e sem rumo, que ao vê-lo ir pra longe só correm.
socorro.
não é a boca seca, muda, que grita em silêncio e canta em dó lá no fundo que ele tem a si e a mi. não é a cabeça pós-sangria, na ressaca burra de quem tenta esquecer em uma hora o que outras vinte e três só fazem lembrar. não é o rosto salgado e ardido de pranto sem razão. não é o maxilar arraigado num sorriso que não murcha, quase como de plástico, nunca felicidade que não se recicla.
não é o corpo todo, não é em corpo nenhum.
o que mais dói é saber que, de tantas dores, é a ideia de parar de sentir que me põe a sofrer.

sexta-feira, dezembro 6

o meio é o começo do fim.